O X do século XXI - 10 minutos com Philip Wollen, ex vice-presidente do Citibank

A verdade que nenhum ambientalista pode deixar de mostrar:
Como a indústria da morte e crueldade dos animais está devastando o planeta, arruinando as espécies, adoecendo e matando de fome a humanidade em proporções gigantescas.

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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Baterias também têm de ser verdes

Baterias também têm de ser verdes


      A onda sustentável que tomou o planeta nas últimas décadas levantou considerações em torno da fabricação de baterias

     A busca pelo aumento da eficiência passou a rivalizar com a batalha por tornar esses dispositivos mais verdes. O caminho seguro é a substituição gradual de fontes sujas de energia, a exemplo do petróleo, pelas renováveis. A energia solar, em especial, foi alavancada ao status de possível solução definitiva para os dois problemas que rondam as baterias: a eficiência e a sustentabilidade


     Se toda a radiação que atinge a Terra em um dia, vinda do Sol, virasse eletricidade, seria possível sustentar a humanidade por 27 anos. Na prática, o que falta hoje para a adoção ampla da alternativa solar é apenas vontade, da indústria e de consumidores, para implantá-la. A startup alemã Changers achou uma boa forma de incentivo.



   A Changers vende os modelos abastecidos por radiação solar. Seus carregadores, finos e maleáveis, podem ser acoplados a mochilas ou levados dentro de uma bolsa. Após quatro horas carregando no sol, uma dessas baterias absorve energia suficiente para produzir 16 watts-hora, o suficiente para recarregar a bateria de um smartphone duas vezes no dia. 



    Um aplicativo, normalmente entregue junto com as baterias da Changers, motiva clientes a ser sustentáveis — e, no processo, mostra as vantagens de adotar essa postura (mesmo que para isso seja preciso pagar um pouco mais caro pelo produto alimentado pelo sol, em comparação com as baterias carregadas com fontes sujas). O app mede a quantidade de emissões de CO2 de cada usuário, com base em dados de seu dia a dia, como a distância percorrida de carro. Depois, calcula quanto a pessoa economizou em CO2 com atitudes verdes, como substituir o automóvel pela bicicleta, ou usar baterias de energia solar, em vez das que utilizam a tomada. O resultado da conta mostra se o indivíduo está em débito ou com crédito. Quem fica no positivo ganha benefícios da startup. Afirma Daniela Schiffer, fundadora da Changers: "Todos adoram falar da necessidade de cuidar da Terra, mas poucos se mexem para isso. Queremos dar um empurrão, dizer ‘vamos começar de algum lugar’ e mostrar quanto é fácil adotar posturas mais conscientes".

quarta-feira, 10 de abril de 2013


Por que o Rio decidiu multar  

quem joga lixo no chão?


qua, 10/04/13 por andre trigueiro


         A partir do próximo mês de julho, aproximadamente 500 agentes públicos participarão de uma operação permanente – e inédita – nas ruas do Rio de Janeiro. Eles vão multar quem for flagrado jogando lixo no chão. E não importa o tamanho do resíduo.
         Para volumes pequenos, que tenham tamanho igual ou menor ao de uma lata de cerveja, a multa é de R$ 157. Para resíduos maiores que uma lata de cerveja e menores que um metro cúbico, o valor sobe para R$ 392. O que for descartado de forma inadequada com tamanho acima de um metro cúbico custará ao infrator R$ 980. Em caso de entulho, o valor sobre para R$ 3 mil.
     Depois de quase dois meses de consultas ao Departamento Jurídico da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) e à Procuradoria do Município, a Prefeitura chegou à conclusão de que a melhor maneira dessa nova regra “pegar”, ou seja, de a multa surtir o efeito desejado e constranger o cidadão a não jogar lixo no chão, era garantir que o valor estabelecido será pago e que o eventual não pagamento significará uma enorme dor de cabeça para o infrator.
        Vai funcionar assim: cada equipe de fiscais será composta por um guarda municipal, um policial militar e um agente de limpeza da Comlurb. Caberá ao guarda municipal levar consigo um computador de mão com acesso à internet, acoplado a uma impressora. Ao flagrar o lançamento irregular de lixo no chão, a equipe fará imediatamente a abordagem para obter o CPF do infrator. Basta o número do CPF para que a multa seja impressa na hora no local do flagrante. Se o cidadão se recusar a dar o CPF, será levado pelo policial militar até a delegacia mais próxima como já acontece com quem é flagrado fazendo xixi na rua.
      Quem for multado tem o direito de recorrer. Se ainda assim for considerado culpado e decidir não pagar a multa, terá o título protestado pela Prefeitura. Ou seja, ficará com o nome “sujo” na praça e poderá ter dificuldades para pedir empréstimos ou fazer compras a prazo.
        É possível que alguém considere exageradas estas medidas. Mas exagerado é o volume de lixo abandonado no lugar errado no Rio. Apenas no ano passado, foram recolhidas das ruas, praias, encostas e outros lugares onde não deveria haver lixo nenhum mais de 1,2 milhão de toneladas de resíduos. O equivalente a três Maracanãs repletos de lixo.
       A eventual falta de lixeiras por perto não deveria servir de desculpa, pois que em várias cidades do mundo elas também não são fáceis de encontrar (no Japão há cidades em que elas são raríssimas) e nem por isso há sujeira nas ruas. Nessas cidades, o cidadão reconhece a parte que lhe cabe em relação ao lixo que gera, e não se importa de transportar consigo o resíduo até que seja possível descartá-lo de forma segura.
     Apenas para dar um exemplo da situação limite a que o Rio chegou: na Avenida Rio Branco, uma das mais movimentadas da cidade, existem 100 cestas coletoras de cor abóbora, daquelas que chamam a atenção de longe. Ainda assim, são abandonados no chão 580 quilos de lixo por dia. Uma equipe de 16 garis é obrigada a varrer as calçadas da Rio Branco quatro vezes por dia.
      O mesmo acontece em outras importantes vias públicas da cidade como a Avenida Nossa Senhora de Copacabana (4 toneladas/dia), Rua Coronel Agostinho, em Campo Grande (1,5 tonelada /dia), Avenida Presidente Vargas (780 kg/dia) e Estrada do Portela (435 kg/dia).
      O que passa despercebido pela maioria das pessoas que jogam sem cerimônia seus resíduos no chão é que esse simples gesto tem um impacto importante sobre o orçamento do município. Apenas no ano passado, foram gastos R$ 600 milhões com toda a logística que envolve a limpeza das calçadas e a retirada de lixo das praias. Se fosse possível reduzir em apenas 15% o volume de lixo despejado no lugar errado, o dinheiro economizado seria suficiente para construir , segundo cálculos da própria Comlurb, 1.184 casas populares, 30 Clínicas da Família ou 22 creches modernas como são os espaços de desenvolvimento infantil (EDIS).
       Sem a colaboração cidadã de parte expressiva dos moradores da cidade, a Comlurb vem demandando cada vez mais recursos públicos. O orçamento de R$ 1,2 bilhão já é o quinto maior do município. Um absurdo, considerando que o crescimento dos gastos ocorre em grande parte por displicência de quem suja a cidade.
       E vem sujando cada vez mais.
      O ano de 2013 já começou com um novo recorde em sujeira nas praias. 768 toneladas de lixo foram recolhidas das areias, um aumento de 19% em relação ao ano passado. Depois veio o carnaval, e no embalo dos blocos, mais um recorde de sujeira. 1120 toneladas de lixo, um crescimento de 12% em relação ao ano anterior. Para completar a situação, o Rio de Janeiro foi escolhido em fevereiro a nona cidade mais suja do mundo, numa lista de 40 dos mais importantes destinos turísticos do planeta. Vexame internacional.
      A aplicação de multas não resolve o problema, mas pode inibir bastante a recorrência deste lançamento indiscriminado de resíduos no lugar errado. Tal como aconteceu quando se decidiu aplicar multas mais salgadas nos motoristas que fossem flagrados sem o cinto de segurança, ou mais recentemente nos condutores embriagados, há um efeito didático poderoso quando o que está em jogo é o risco de prejuízo financeiro.
    Se o bolso continua sendo a parte mais sensível do ser humano, é por aí que se deve buscar a “consciência” do cidadão em favor de uma sociedade melhor e mais justa.


Se você quiser acompanhar a notícia na íntegra, é muito fácil, é só clicar nos seguintes links:
 


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Amazônia, o Brasil sustentável



Amazônia, o Brasil sustentável







       Na Amazônia, o Brasil tem algumas de suas maiores riquezas, que vão desde a impressionante diversidade de seu meio-ambiente, até suas maiores reservas minerais, sem falar em importantes culturas extrativistas. E, por isso, lá reside parte substantiva do futuro da humanidade, nosso verdadeiro pulmão natural, sendo hoje motivo de preocupação permanente e de toda atenção dos poderes públicos e da sociedade civil.
     Temos buscado ao longo dos últimos anos equacionar a utilização dos recursos advindos da riqueza amazônica com sua exploração comercial, baseada na sustentabilidade e no mais absoluto respeito à floresta e seu povo. Lá estão 60% do território nacional, população crescente e o desafio de soluções de manejo florestal que combinem as atividades do agronegócio, da mineração e da extração da madeira, em um adequado modelo de desenvolvimento.
      De região desconhecida, inóspita e abandonada pelos poderes públicos até meados do século XX, a região passou a protagonista do desenvolvimento econômico nacional, com a descoberta integral de seus valores, com a implantação da Zona Franca de Manaus e de Zonas de Processamento de Exportação, as ZPE’s.
       Foram necessários mais de cinquenta anos para que a mais rica reserva natural da humanidade conseguisse superar uma decadência econômica brutal iniciada com o fim do ciclo da borracha. A região conheceu da mais absoluta riqueza até uma situação grave de penúria e esquecimento. Os brasileiros da Amazônia pagaram preço altíssimo pelas políticas equivocadas ou danosas adotadas por seguidos governos, que não tiveram a sensibilidade devida para com a região, suas potencialidades e sua gente.
       A Zona Franca de Manaus, um dos principais pilares do desenvolvimento econômico da região, mesmo abrigando centenas de empresas de altíssimo gabarito e um operariado da mais alta qualificação, foi sabotada durante os anos 90 e inícios da década seguinte. O governo de FHC fez de tudo o que pode no sentido de desmantelar um ente absolutamente indispensável para o progresso regional e a integração da Amazônia com o restante do país. No ano passado, por exemplo, o governador paulista Geraldo Alckmin, do PSDB, chegou a iniciar uma contenda jurídica contra os benefícios concedidos à Zona Franca, trabalhando por sua extinção supostamente em nome dos interesses de São Paulo e de suas empresas. Esse gesto inaceitável do governador tucano, rechaçado por todos os que compreendem o sentido da nacionalidade e a importância da Zona Franca no contexto de nossa vida social, econômica e política, serve, todavia, para mostrar o quão incompreendida e desrespeitada ainda é a região amazônica.
      Nos últimos dez anos, desde a posse do presidente Lula em 2003, as políticas adotadas pela União em se tratando de Amazônia são – todas elas, sem exceção alguma – de absoluta integração, incentivo, apoio e complementariedade. Não se compreendeu o Brasil como país vencedor, como Nação desenvolvida e economia vigorosa, respeitada pelos demais países, sem que a Amazônia e os brasileiros que lá vivem sejam ativos participantes de nossa vida nacional, do processo produtivo, do esforço dos brasileiros por um amanhã melhor, mais fraterno e mais justo.
     A política de meio-ambiente, com a preservação de nossas florestas, com a exploração responsável e sustentável das florestas, das reservas minerais, da criação de gado e da extração madeireira, além da industrialização nos grandes centros urbanos que brotaram de 1950 para cá, foram a marca registrada dos dois mandatos do presidente Lula e da atual gestão da presidenta Dilma.
     Merece destaque a ação da Força Aérea Brasileira, através do SIVAM, e das forças de segurança de cada Estado e a Polícia Federal, conjuntamente, na preservação da integridade de nossas extensas fronteiras na região, além da repressão ao narcotráfico, ao desmatamento e à exploração irresponsável e predatória da floresta e ao contrabando.
    Belém, Manaus, Cuiabá, Santarém, Rondonópolis, Araguaína, Altamira, Marabá, Macapá, Boa Vista, Rio Branco, Ananindeua, Porto Velho, dentre outras, hoje são cidades dotadas de poderosa infraestrutura, embora, também, se debatam com problemas inerentes à condição de grandes e médios centros urbanos ascendentes.
    Nos últimos anos alguns Estados da região, como Roraima, atingiram índices de crescimento econômico que passaram dos 10, 11 ou 13% anuais. Os indicadores sociais melhoraram de forma considerável, embora as grandes distâncias e as dificuldades inerentes ao que o grande poeta Thiago de Mello chamou de “Pátria D’Água” muito dificultem a celeridade nos transportes e numa logística mais efetiva na distribuição de alimentos, remédios e bens de consumo.
     Estradas, aeroportos e portos, obras de grande repercussão regional e nacional, algumas já com bastante atraso e que imensos prejuízos causaram à população e aos produtores rurais, estão sendo construídas ou revitalizadas. O PAC avança em toda a Amazônia, com a devida cautela para que a bela e inigualável geografia local não seja violentada.
    Na Amazônia, onde médicos, professores, mineradores, operários da Zona Franca, agricultores, castanheiros, seringueiros, empreendedores, enfim, todos os brasileiros que lá labutam, conhecem e defendem a maior floresta do mundo, o Brasil assume as proporções de grandeza que nos chamam à responsabilidade na preservação de tamanha riqueza.
(Delúbio Soares, professor)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Eletricidade mais barata: e o meio ambiente?


Eletricidade mais barata: e o meio ambiente?


Empresas terão redução de custos, mas não devem perder de vista a necessidade de poupar energia e buscar meios alternativos

Por Claudio Tieghi*

Divulgação    
           

          Recentemente, a presidente Dilma Rousseff anunciou que a conta de luz ficaria mais barata para os brasileiros. É certo que essa iniciativa contribui positivamente para o desenvolvimento das pequenas e médias empresas, uma vez que a energia é um ponto crítico nos custos dos negócios. 

        A presidente também descartou a possibilidade de racionamento de energia e disse que o país está aumentando sua capacidade elétrica. 

      Queria aproveitar esse anúncio para alertar a sociedade sobre a importância da obtenção de energia por meios alternativos, uma vez que os ciclos das chuvas têm comprometido o fornecimento. O Brasil precisa ampliar sua matriz energética para garantir o desenvolvimento econômico e o fornecimento de energia do dia a dia em algumas regiões castigadas pela falta de água. 

        Já existe tecnologia disponível para a geração de energia de outras fontes que não a água, como o sol e o vento, tão abundantes em nosso país, mas tudo isso ainda parece muito distante de nossa realidade cotidiana. 

         Também entrará em vigor a partir do ano que vem um acréscimo na cobrança da energia elétrica para os que consomem mais eletricidade, sempre que os reservatórios estiverem em níveis críticos. 

        Para educar o cidadão, a partir de março de 2013 as contas trarão um quadro explicativo com as chamadas ”bandeiras tarifárias”. Quando os reservatórios estiverem cheios, a bandeira será de cor verde. O amarelo será utilizado para o estágio de atenção, e o vermelho quando os reservatórios estiverem em níveis preocupantes. Vale lembrar que atualmente todas as regiões do país se encontram em situação “vermelha”. 

          Não consigo enxergar outra cor a não ser essa quando se trata da utilização de recursos naturais. O planeta está no vermelho! Precisamos estar sempre alertas e não podemos “baixar a guarda” em relação à preservação do meio ambiente. 

       O estado de alerta quanto ao consumo de energia não deve ser entendido como apocalíptico e sim como uma oportunidade de elevarmos nossos padrões de consciência e abrir espaços para a inovação e a criatividade – em outras palavras, aprender a fazer mais com menos e harmonizar a operação dos negócios com a vida. 

         De toda forma, a redução da conta de luz ajuda o pequeno e o médio empresário, como a de qualquer outro custo inerente ao negócio. Mas o que ele realmente precisa é de uma imediata revisão fiscal. Isso sim daria um impulso fantástico ao empreendedorismo, à formalização dos negócios e à geração de renda. 

          A energia ficou mais barata, mas não é para usar mais. É para economizar sempre! 

Claudio Tieghi, diretor de responsabilidade social do Grupo Multi Holding e presidente da Afras - Associação Franquia Sustentável 









sábado, 27 de novembro de 2010

A crise financeira e o impacto ambiental. Entrevista especial com Ladislau Dowbor

Esta entrevista de dois anos atrás continua atual devido à crise nos EUA e Europa continuar, e à perspectiva de que perdurará or muito. Quanto à esperança apontada em Obama, deve ter diluído, considerando as medidas reentes dos EUA de inflacionar a economia mundial com um montante fabuloso de dólares para estimular o consumo ods produtos norte-americanos no mundo, medida que já foi adotada nos anos 70 com a crise do petróleo, e que foi tão nefasta para o Brasil na época.

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[The financial crisis and the environmental impact. Special interview with Ladislau Dowbor]

A crise financeira surge em meio à outra crise, tão relevante para nossas vidas quanto o problema econômico: a crise ambiental. No entanto, os problemas previstos com a questão do clima no mundo suscitaram debates, discussões e pouca adesão. Porém, a crise financeira promoveu uma mobilização mundial para reestabilizar o mercado mundial. Segundo o professor Ladislau Dowbor, que concedeu a entrevista a seguir, por telefone, à IHU On-Line, precisamos “colocar o problema das finanças no plano de fundo do reequilibramento da desigualdade planetária e no financiamento da problemática ambiental”. Dowbor analisou a relação entre as duas crises, as emergências para repensar o meio ambiente a partir do que será construído para reorganizar o mercado financeiro e também sobre as oportunidades que surgem para a natureza a partir da crise no sistema econômico. “Há uma gigantesca esperança com a eleição do Obama porque os Estados Unidos, como economia mais forte do planeta, generalizou políticas que eram contrárias ao ambientalismo, políticas unilaterais sem consulta, o desprezo pelas Nações Unidas e sistemas multilaterais de governança. Tudo isso, junto com políticas irresponsáveis na área de energia de finanças, gerou um buraco negro para o planeta”, afirmou.

Ladislau Dowbor é graduado em Economia Política, pela Université de Lausanne, na Suíça. É especialista em Planificação Nacional, pela Escola Superior de Estatística e Planejamento da Polônia, onde também obteve o título de mestre em Economia Social e doutor em Ciências Econômicas. Atualmente, é professor da PUC-SP. Sua mais recente obra é Democracia econômica: alternativas de gestão social (Petrópolis: Editora Vozes, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o impacto da crise financeira traz sobre o meio-ambiente?

Ladislau Dowbor – No conjunto, trata-se de um problema central que na economia chamamos de regulação econômica. Os bancos e o sistema de intermediação financeira não trabalham com dinheiro próprio, mas com poupanças que são da população. Se você olhar na nossa constituição, verá que os nossos intermediários financeiros recebem autorização para trabalhar com o dinheiro do público com o objetivo de promover o desenvolvimento e assegurar o uso produtivo das poupanças. É óbvio que o sistema financeiro desgarrou completamente dessa visão e se transformou num sistema especulativo mundial. Isso vale para o conjunto de derivativos. Na véspera da crise, a circulação diária de aplicações especulativas era da ordem de 1,8 trilhão de dólares por dia, quando o volume de importações e exportações que justificariam transações financeiras como contrapartida gira em torno de 30 bilhões por dia. Então, é uma irresponsabilidade generalizada dos grandes bancos e dos investidores institucionais que passaram a fazer dinheiro com dinheiro sem se preocupar com a sua aplicação produtiva.

Isso é a base da crise, porque você monta um castelo de cartas entre especuladores baseado na incompreensão dos comuns mortais de como funciona essas coisas e o resultado é a quebra. O problema não está na crise em si. Esse é um sistema que simplesmente não funciona. Estamos nos reorientando para a redefinição das regras do jogo. O que está na mesa de discussão hoje é o Breton Woods II [1]. O Breton Woods do fim dos anos 1940 criou o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, a ONU, enfim, criou regras do jogo que já estão ultrapassadas. O que está na mesa é como serão as regras do jogo para resgatar o eixo central. As poupanças, que são das populações e não dos intermediários financeiros, devem ser utilizadas para atividades produtivas, para o progresso social e para o equilíbrio ambiental; esse é o eixo central.

IHU On-Line – Em relação às mudanças climáticas, que urgências são suscitadas a partir da crise financeira?

Ladislau Dowbor – Ignacy Sachs [2] fala sobre as oportunidades que saem dessa crise, e Jeffrey Sachs [3] segue outra linha, que também é importante. Juntando essas visões, você descobre que podemos colocar na mesa o problema da crise financeira de forma mais ampla e discutir, então, a organização econômica e social do planeta. Ou seja, coloca o problema das finanças no plano de fundo do reequilibramento da desigualdade planetária e no financiamento da problemática ambiental. Esses são os dois grandes eixos de desafiam o planeta: a desigualdade – nós temos quatro bilhões de pessoas, segundo o Banco Mundial, que estão fora do chamado beneficio da globalização – e o aquecimento global que, na realidade, é a ponta mais visível, que implica no esgotamento das vidas nos mares, na erosão dos solos, na perda de cobertura vegetal por desmatamento irresponsável, ba contaminação generalizada da água doce no planeta. Afora isso, um detalhe: o petróleo fácil está acabando, ou seja, a matriz energética precisa ser repensada.

Então, a crise é bem mais ampla e, de certa maneira, ao desencadear, com extrema visibilidade para todo o planeta, a irracionalidade e a fraude sistemática que existe nos mecanismos financeiros põe em discussão as regras do jogo para a regulação planetária para o conjunto dos problemas sociais e ambientais. O planeta não pode simplesmente seguir o que o Nicholas Stern [4] – autor de um relatório importante sobre isso – prevê. O planeta está frente a frente com a responsabilidade. São problemas demasiadamente amplos. Nós acreditamos tempo demais que o mercado resolveria, que uma mão invisível resolveria. Nós precisamos de governança planetária que funcione.

Há uma gigantesca esperança com a eleição do Obama [5] porque os Estados Unidos, como economia mais forte do planeta, generalizou políticas que eram contrárias ao ambientalismo, políticas unilaterais sem consulta, o desprezo pelas Nações Unidas e sistemas multilaterais de governança. Tudo isso, junto com políticas irresponsáveis na área de energia de finanças, gerou um buraco negro para o planeta. Os Estados Unidos têm um peso tal para o planeta que não se conseguem soluções sistêmicas sem que eles contribuam. Então, essa virada atual abre imensas esperanças.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a posição dos governos frente às duas crises?

Ladislau Dowbor – O Brasil vive uma situação bastante particular. Em primeiro lugar, o fator crítico no Brasil é a desigualdade social e nesse plano é um país que está indiscutivelmente fazendo a lição de casa. A partir do governo Lula, temos o Bolsa Família, que atingiu cerca de 45 milhões de pessoas, a capacidade real de compra com o salário mínimo superior a 30%, o que favoreceu cerca 26 milhões de trabalhadores. O aumento do salário mínimo, como ele é um regulador das pequenas aposentadorias, atingiu também a melhoria de cerca de 16 milhões de aposentados. Tivemos ainda um aumento em cerca de dez milhões de empregos nessa gestão e o aumento do Pronaf. As regiões mais pobres do país vivenciaram o Programa Territórios da Cidadania. Esse conjunto de iniciativas que inclui outros projetos, como o ProUni, de certa maneira está ajudando a reequilibrar socialmente o país. Esse é um eixo com resultados indiscutíveis.

O outro eixo é o ambiental, em que vivemos uma situação particular. Porque nós temos uma matriz energética que é das menos agressivas no planeta. O Brasil está baseado essencialmente em energia hidrelétrica. Onde nós somos mais vulneráveis é nas queimadas, como, por exemplo, aquelas utilizadas na produção de açúcar e na Amazônia. O terceiro eixo nessa problemática ambiental é que o Brasil tem a maior reserva planetária de terras agrícolas paradas, ao mesmo tempo em que possui imensas reservas de água. Com a necessidade de evolução para biocombustíveis, é óbvio que um país com gigantescas reservas de terra e água tem trunfos na mão extremamente poderosos.

O Brasil é, em grande parte, o eixo das soluções, não dos problemas. O problema está e continua nos Estados Unidos, que têm 4% da população e mais de ¼ da produção de gases estufas do planeta. É ali que realmente está se gerando a ameaça. Complementarmente, temos fortes ameaças da China e outros países com bastante peso populacional. Pense que a China e a Índia representam 40% da população mundial. Na visão mais ampla, o planeta deve repensar a sua sustentabilidade. Nós usamos, para essa mudança institucional necessária, a visão de que há três personagens sem voz: a natureza é silenciosa, os quatro bilhões de pobres do planeta não têm voz e nem aparecem na mídia, e as futuras gerações que serão privadas de água limpa, de vida nos mares etc., também não estão presentes para protestar. Então, esse sistema de desenvolvimento que nos enche de publicidade na televisão, com imagens de bonecas Barbie dizendo que está tudo uma maravilha, é muito demagógico e irresponsável.

IHU On-Line – Com as proporções que a crise financeira tomou, há uma perspectiva diferente para a abordagem ecológica? Como essa abordagem deve acontecer?

Ladislau Dowbor – Isso é justamente o que está se colocando embaixo do título geral de Breton Woods II. É interessante lembrar que Breton Woods surge a partir de uma gigantesca crise gerada por uma guerra mundial, 60 milhões de mortos e uma disposição do planeta de dizer um basta. De certa maneira, nesse sentido, a crise é geradora de oportunidades porque balança as visões do planeta. Se não fosse a crise financeira, o Obama não teria sido eleito, e então estaríamos com a continuação da exploração do petróleo e mais irresponsabilidades mundiais e mais guerras. Essa crise leva o presidente da França, um conservador liberal, a dizer: “Não é possível continuar sem recuperar o poder da política sobre os mecanismos econômicos”. Pensemos que há toda uma atitude brasileira no sentido de se construir alternativas.

IHU On-Line – Pensar no meio ambiente neste momento estimularia uma nova forma de desenvolvimento econômico? Que oportunidades para o meio ambiente surgem diante dessa crise financeira?

Ladislau Dowbor – Não tenho dúvidas. Isso passa por vários eixos. Nós precisamos mudar a matriz energética. Por isso, tantas empresas estão começando a produzir carros elétricos, sistemas mistos, enfim, estão buscando novas tecnologias. No mundo da agricultura, a simples extensão de grandes propriedades de monocultura com muitos pesticidas e contaminação, essa visão que chamamos de revolução verde, está sendo colocada de lado. Isso gerou um relatório planetário muito importante sobre a aplicação das tecnologias da agricultura.

Notas:

[1] As conferências de Bretton Woods, definindo o Sistema Bretton Woods de gerenciamento econômico internacional, estabeleceram em Julho de 1944 as regras para as relações comerciais e financeiras entre os países mais industrializados do mundo. O sistema Bretton Woods foi o primeiro exemplo, na história mundial, de uma ordem monetária totalmente negociada, tendo como objetivo governar as relações monetárias entre Nações-Estado independentes. As principais disposições do sistema Bretton Woods foram, primeiramente, a obrigação de cada país adotar uma política monetária que mantivesse a taxa de câmbio de suas moedas dentro de um determinado valor indexado ao dólar — mais ou menos um por cento —, cujo valor, por sua vez, estaria ligado ao ouro numa base fixa de 35 dólares por onça Troy, e em segundo lugar, a provisão pelo FMI de financiamento para suportar dificuldades temporárias de pagamento. Em 1971, diante de pressões crescentes na demanda global por ouro, Richard Nixon, então presidente dos Estados Unidos, suspendeu unilateralmente o sistema de Bretton Woods, cancelando a conversibilidade direta do dólar em ouro

[2] Ignacy Sachs é um economista polonês, naturalizado francês. Também é referido como “ecossocioeconomista” por sua concepção de desenvolvimento como uma combinação de crescimento econômico, aumento igualitário do bem-estar social e preservação ambiental. Suas idéias são hoje mais claramente compreendidas, no cenário das mudanças climáticas e da crise social e política mundial.

[3] Jeffrey David Sachs é um economista norte-americano conhecido pelo seu trabalho como conselheiro econômico de diversos governos da América Latina, do Leste Europeu, da extinta União Soviética, da Ásia e de África. Atualmente, trabalha como professor na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Propôs uma “terapia de choque” como solução para as crises econômicas que afetavam a Bolívia, a Polônia e a Rússia como parte do seu trabalho de aconselhamento. É também conhecido pelo seu trabalho em agências internacionais para a redução da pobreza, o cancelamento da dívida e o controle de doenças, especialmente a AIDS, para os países subdesenvolvidos.

[4] Nicholas Stern é chefe do serviço econômico do governo de seu país. Há dezesseis anos, pesquisa o impacto do aquecimento global na economia mundial. Ex-economista-chefe do Banco Mundial e diplomado pelas universidades de Cambridge e de Oxford, Stern lançou mão de modernos modelos matemáticos e econômicos na tentativa pioneira de estimar os prejuízos decorrentes do chamado efeito estufa.

[5] Barack Hussein Obama II nasceu em Honolulu. Foi eleito, no dia 4 de novembro de 2008, presidente dos Estados Unidos. É senador pelo estado de Illinois. Obama foi o primeiro afro-americano a ser eleito presidente estadunidense. É também o único senador afro-americano na atual legislatura. Atuou como líder comunitário e como advogado na defesa de direitos civis.

Nota do EcoDebate: sugerimos que leiam, também, outras entrevistas, publicadas pelo Ecodebate, com o prof. Ladislau Dowbor:



(http://www.EcoDebate.com.br/, 07/11/2008) publicado pelo IHU On-line, 06/11/2008 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Uma análise sem paixões do governo Lula

Para os liberais, o governo Lula foi socialista (intervenção forte do Estado na economia) populista. Para os marxistas "nacional e liberal desenvolvimentista" (continuidade do neoliberalismo em detrimento dos ideais socialistas: UNB). O fato é por suas especificidades histórias, a economia do país nunca foi liberal no sentido de livre de grandes intervenções do Estado. 

Num cenário onde as pessoas anônimas ou não avaliam o governo mais com paixão do que discernimento ( e os estudiosos de publicidade política afirmam que votamos mais com a emoção do que a razão), aqui postamos um artigo de "bom tom" (sem frizar as questões éticas do governo inclusive em relação aos Direitos Humanos que tanta polêmica causam) publicado pela IHU há dois anos, mas muito atual. Com equilíbrio, sem ufanismo ou pessimismo, sem parcialidade explícita, que não desagrada gregos e troianos, a era Lula e a classifica como "pós-neoliberal pragmático".

As imagens foram selecionadas por nós, sendo uma da capa da Economist mostra a percepção positiva de quase todas as agências de consultoria econômica internacionais - excessão das que seguem uma avaliação próxima da Escola Austríaca de Economia, como revela o jovem economista liberal Rodrigo Constantino http://vimeo.com/12678194 que nos dá uma luz sobre as razões o discurso de Lula e Dilma em prol da austeridade e da CPMF depois de encerradas as eleições.Austeridade que por cautela, devemos ter com dívidas de médio e longo prazo.

Depois de dois anos de investimento pesado em prol das eleições (como mostra o gráfico mais abaixo), e a má conjuntura internacional para os próximos 4 anos, Guido Mantega em entrevista ontem ao Jornal Nacional (25/22/10), logo após anunciada a nova equipe econômica do governo Dilma, avisa: houve um gasto maior nos últimos dois anos devido as necessidades específicas e a hora é de conter os gastos públicos, impedir o aumento das despesas. Como equacionar isto sem descontentar os setores que a elegeram? Ainda não há respostas, só o tempo dirá. 

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Governo Lula. Um governo ‘pós-neoliberal pragmático’

Lula chega ao final do seu segundo ano de governo, em seu segundo mandato. Restam ainda dois anos. Após esse longo período já é possível um balanço definitivo sobre o caráter e a natureza do governo Lula. Um governo complexo, intrigante e, porque não dizê-lo, fascinante naquilo que comporta uma análise sociológica. Assim é o governo Lula. As análises da conjuntura postadas no sítio do IHU nesse ano permitem uma interpretação do caráter político do governo. Ousamos aqui definir o governo Lula como um governo ‘pós-neoliberal pragmático’.

É pós-neoliberal porque não se pode simplesmente afirmar que Lula é mero continuísmo de Fernando Henrique Cardoso. Embora os princípios macroeconômicos que orientaram a política econômica anterior não tenham sido alterados, e na essência permaneçam os mesmos, é inegável que com Lula, com todos os limites que apresenta, o Estado assume um novo papel na sua relação com a economia e com a sociedade. Lula adota um pós-neoliberalismo pragmático.
 
Distingue-se assim de outros governos latino-americanos como Evo Morales, Hugo Chávez, e em medida menor Rafael Correa, que adotaram como política um ‘pós-neoliberalismo reformador’. Esses governos, em maior ou menor grau, optaram por políticas de confronto explícito com o ideário neoliberal e colocaram em marcha políticas de caráter antineoliberal. O curioso – e aqui ousamos polemizar – é que até o momento os governos ‘pós-neoliberais pragmáticos’ parecem que têm dado mais certo que os governos ‘pós-neoliberais reformadores’, levando-se em conta as sucessivas crises políticas que Evo Morales, na Bolívia, e Chávez, na Venezuela, enfrentam.

Lula, e aqui se pode citar também Bachelet, Tabaré Vázquez, o casal Kirchner e agora Lugo, optaram por um tipo de pós-neoliberalismo que não entra em confronto com o capital, mas antes de tudo estabelece alianças com esse capital na perspectiva da retomada do crescimento econômico. No caso específico de Lula, o seu governo desenvolve, ao mesmo tempo, um forte programa social, que se por um lado, pode ser considerado como ‘compensatório’, por outro, assume uma amplitude social que não pode ser desconsiderada.

Lula se transformou em um grande conciliador de classes. Na economia, procura reeditar o governo Juscelino Kubitschek (JK) e na política, o governo Vargas.

Sob a perspectiva econômica, Lula não esconde de ninguém que gostaria de ser lembrado como um “novo JK”. Segundo o presidente: “A sigla JK incorporou-se à consciência como sinônimo de um certo Brasil orgulhoso de si mesmo e confiante do futuro”. O “Brasil à moda JK” de Lula retoma o conceito de “desenvolvimentismo”. Por um lado, este conceito está associado ao papel do Estado como indutor da economia e, de outro, na premissa que o crescimento econômico é o grande condutor da distribuição de renda. O conceito é originário dos anos 50 e está ligado aos governos Vargas e JK e até mesmo aos militares, períodos em que o Brasil cresceu de forma acelerado a partir de investimentos pesados em infra-estrutura.

Entretanto, o nacional-desenvolvimentismo praticado pelo governo Lula é distinto do praticado na Era Vargas. No período anterior, os investimentos realizados pelo Estado constituíram a formação de um capital produtivo sob controle do próprio Estado. Foi assim que surgiu a CSN, a Companhia Vale do Rio Doce, a Petrobrás, a Eletrobrás, o sistema Telebrás. Foram essas empresas que possibilitaram a modernização conservadora do país e o alçou a uma das potências econômicas mundiais.

O nacional-desenvolvimentismo de Lula, sob a perspectiva econômica, assemelha-se ao de JK e não ao de Vargas, ou seja, o Estado presta-se antes de tudo ao fortalecimento do capital privado. Com o governo JK se deu a formação do tripé Estado, Empresas Estrangeiras e Empresas Nacionais. O papel do Estado é o de responder às demandas de infra-estrutura, de energia e logística para atender aos interesses do capital privado nacional e transnacional. Foi o que procurou realizar JK e é o que faz Lula tendo no Programa de Aceleração da Economia (PAC) a sua síntese.

Destaque, entretanto, que o governo Lula tem sua porção nacionalista ao defender o fortalecimento do Estado como visto nos temas do pré-sal e na conformação de uma ‘supertele’ de capital nacional. Porém, mesmo nesses temas o governo apresenta sinais contraditórios. Na questão do pré-sal, o presidente Lula em tom nacionalista, lembrando os tempos da campanha ‘O petróleo é nosso’ afirmou que o “Petróleo não pode ficar na mão de meia dúzia”. “Esse patrimônio que está a 6.000 metros de profundidade é da União, de 190 milhões de brasileiros. Precisamos utilizá-lo para fazer reparação aos pobres deste país”, disse o presidente.

Grosso modo, o governo já tem definidas quatro grandes linhas estratégicas para a exploração de petróleo na camada do pré-sal: 1) serão garantidos os blocos já leiloados e respeitados os contratos assinados; 2) não será mais concedido à iniciativa privada ou à Petrobrás nenhum novo bloco nessa área ou na franja do pré-sal, pois decidiu-se que o regime a ser adotado será o de partilha de produção; 3) a possibilidade da criação uma empresa estatal, não operacional, para gerir todos os contratos de exploração do pré-sal; 4) o Brasil terá um regime misto de exploração do petróleo, sendo de concessão para áreas de alto risco exploratório e de partilha de produção para o pré-sal.

Destaque-se ainda que há um ingrediente político-eleitoral que pesa na decisão sobre o destino da riqueza dos poços da camada pré-sal. Lula acreditaque o uso social dos recursos do pré-sal vitaminará politicamente a ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, provável candidata a sucessão de Lula. Se por um lado, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é a “vitrine” para tornar Dilma conhecida, o pré-sal, poderá ser o “palanque” em 2010. Considere-se ainda que Dilma, por ser ex-ministra de Minas e Energia, tem afinidade técnica com a área energética, e isso facilita a tarefa de Lula de ligá-la positivamente ao pré-sal.

No caso da ‘supertele’, a fusão da Oi (ex-Telemar) com a Brasil Telecom (BrT) recebeu forte apoio do Estado com capital subsidiado pelo BNDES e ativa participação dos Fundos de Pensão, sobre os quais o governo exerce influência. O lado nacionalista da iniciativa, por parte do governo, estaria numa estratégia de se contrapor aos grandes grupos estrangeiros, como o mexicano Telmex e o espanhol Telefônica. A intricada operação envolveu dois grandes empresários nacionais Sérgio Andrade (grupo Andrade Gutierrez) e Carlos Jereissati (grupo La Fonte) e os fundos de pensão vinculados aos sindicatos e as estatais. Atente-se para o fato de que o dinheiro público do BNDES, lastreado, sobretudo pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), já havia sido utilizado para irrigar essas mesmas empresas de telefonia privatizadas. Agora, novamente o Estado entra com recursos favorecendo as mesmas empresas, mas repassando-as para mãos privadas – empresários nacionais. Em síntese um capitalismo sem riscos.

Registre-se ainda que as operações em torno das empresas de telefonia envolvem o nome de Daniel Dantas – produto de uma profunda ‘revolução silenciosa’ que se processou no capitalismo brasileiro a partir dos anos 90: a brutal transferência de ativos do Estado para o mercado. O personagem, um produto da ‘Era FHC’, flertou perigosamente com o governo Lula e envolveu várias lideranças petistas. Uma análise do caso Dantas pode ser lida acessando-se a Conjuntura da Semana do início do mês de julho 2008.

Se por um lado, Lula incorpora em seu governo na área econômica iniciativas de caráter nacionalista e defende a importância do Estado como o indutor do crescimento, por outro, é inequívoco que não rompeu com os ditames da macro-teoria econômica neoliberal. Entre outros exemplos, registre-se a polêmica do fim da dívida externa vendida como um falso rompimento com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a ruidosa comemoração com o recebimento do Investment grade.

No primeiro caso, o anúncio do Banco Central de “zeramento” da dívida externa diz respeito muito mais a uma conta de contabilidade do que de fato ao fim da dívida. Pela primeira vez, o Brasil reuniu reservas cambiais superiores à sua dívida externa total. Em tese, a dívida externa foi zerada em função de que os ativos (dinheiro, créditos, investimentos), aplicados no exterior superam o valor de todo o endividamento contraído. Ou seja, significa que o Brasil seria capaz de pagar toda a dívida externa usando só as aplicações que tem lá fora. Em outras palavras, mesmo que o país decretasse um calote (moratória) os recursos que governo e empresas já possuem atualmente aplicados no exterior seriam suficientes para saldar o que supostamente deve. Entretanto, trata-se de uma ‘matemática’ da expertise.

De qualquer forma, a veracidade integral ou parcial do anúncio é resultante da rigorosa aplicação da ortodoxia macroeconômica adotada pelo governo Lula em continuidade a FHC. Dois economistas de coloração partidária diferente exultaram o feito. De um lado, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações e presidente do BNDES do governo Fernando Henrique Cardoso, afirmou exultante: “Como nossa economia mudou nesta última década!”. Segundo ele, “a informação divulgada pelo Banco Central, apesar de já esperada havia tempos, tem uma importância tão grande. Ela marca o fim de uma época de crises constantes, crescimento medíocre e altamente instável, estagnação da renda da população e piora da distribuição de renda por conta da inflação elevada”. Para Mendonça de Barros, “o ajuste das contas externas é um presente, um efeito colateral do crescimento asiático, que elevou nossos termos de troca. Pode ser comparado ao primeiro estágio de um foguete que pode nos levar ao desenvolvimento”. Por outro lado, Paulo Nogueira Batista Jr, economista ligado ao PT, disse entusiasmado: “Nunca pensei que fosse viver esse dia”.

No segundo caso, a notícia de que a agência de classificação de risco Standard & Poors (S&P) considerada uma das mais importante do mercado financeiro, promoveu o Brasil ao chamado grau de investimento – investment grade – manifesta o coroamento da política econômica ‘tucana’ no governo Lula. A atribuição – dada antes da crise econômica mundial – indica que o país tem capacidade de honrar o pagamento dos títulos que emite e oferece segurança ao investidor. O investment grade é o reconhecimento do mercado financeiro internacional de que o Brasil fez a ‘lição de casa’, ou seja, não se desviou do trilho da ortodoxia fiscal iniciada por Fernando Henrique Cardoso. Com certa ‘dor de cotovelo’, Luiz Mendonça de Barros, ex-todo poderoso ministro de FHC, reconhece que “ao estender ao Brasil o grau de investimento, a agência está dizendo que nossa política econômica segue o receituário da ortodoxia das economias de mercado. Em outras palavras, que o governo Lula segue os caminhos trilhados por seu antecessor na busca de um crescimento econômico centrado nas forças de mercado”. Aquilo que sempre foi o desejo de consumo dos tucanos chega ironicamente, anos depois, num governo do PT.

O agraciamento do investment grade é o coroamento da política econômica iniciada por Fernando Henrique Cardoso. Ele não veio com FHC, mas veio com Lula. Como diz a jornalista Maria Cristina Fernandes, “o grau de investimento chegou seis anos depois da Carta ao Povo Brasileiro. A carta ficou registrada na crônica política como a rendição do PT ao sistema financeiro”. Se no começo o capital financeiro tinha algum receio do governo petista, hoje não tem mais. Pelo contrário, o governo Lula é um exemplo para Wall Street.

“Jamais vi uma combinação de um governo que Wall Street ama, e com taxas de aprovação popular altíssimas, após seis anos de mandato”, diz Thomas Trebat, diretor do Centro de Estudos Brasileiros na Universidade Columbia, comentando o investment grade dado ao Brasil. Na opinião do Página/12, jornal argentino, o Brasil é “um sócio mimado pelos mercados”. Recorde-se que o governo Menem, que se orgulhava das relações carnais com os EUA, e o exemplo mais acabado do neoliberalismo nos anos 90 em território latino-americano, também foi agraciado com o investment grade.

O governo ‘pós-neoliberal pragmático’ de Lula é um sucesso. Recentemente recebeu as mais altas taxas de aprovação que jamais um presidente na história republicana teve – talvez apenas Vargas tenha se aproximado da popularidade que desfruta Lula. O sucesso de Lula está ancorado por um lado na economia e, por outro, nas políticas sociais. Pesquisas publicadas recentemente, e amplamente reproduzidas pelo sítio do IHU, indicam que a classe média cresceu e o número de pobres encolheu no país entre 2002 e 2008. As pesquisas desataram uma intensa polêmica, sobretudo a que caracteriza o que é a classe média, tema que foi objeto de uma revista IHU On-Line. Acerca das pesquisas, o sociólogo José de Souza Martins comentou: “Tudo indica que chegamos ao fim da era das demandas radicais e socialmente transformadoras”, destacando o ufanismo com o aumento do poder de consumo dos brasileiros mesmo o país não tendo resolvido os seus problemas estruturais.

Passados seis anos do governo Lula se percebe uma rendição ao conformismo social e político. Não foi colocada em marcha nenhuma grande reforma estrutural na sociedade brasileira. A reforma agrária permanece truncada, a saúde pública persevera em seu estado calamitoso, a educação não dá sinais de melhoria substancial. Os grandes problemas brasileiros persistem: “Continuam ardendo nos olhos de todos nós os cortiços e favelas, as crianças de rua, as evidências de uma numerosa humanidade sem futuro.
 
Tanto os dados do Ipea quanto os da FGV, divulgados nestes dias, sobre a expansão da classe média, nos põem diante da persistência de indicações de que um número imensamente maior dos beneficiários da ascensão social aparente permanece na fila de espera das próprias regiões metropolitanas, que são a referência desses dados. Sem contar os ocultos e invisíveis, refugiados no restante do Brasil, os estatisticamente mal-amados”, afirma José de Souza Martins.

Conclui dizendo que “a proclamação do triunfo estatístico da classe média é documento menos de uma classe média emergente ou nova e muito mais documento do novo conformismo social e político, subjacente não raro a uma mentalidade e a uma linguagem pseudo-radical e pseudo-social”. O risco é o de um país incluído no mercado do consumo, mas não necessariamente incluído do ponto de vista da substancial melhoria da qualidade de vida. Ou seja, ao mesmo tempo em que se vêem shoppings cada vez mais cheios, permanecem as filas dramáticas nos postos de saúde, a educação pública de qualidade crítica, os problemas de saneamento irresolvíveis.

Poder-se-ia afirmar que o governo Lula rendeu-se à lógica economicista e o seu modelo desenvolvimentista revela-se cada vez mais dependente do mercado. O Estado, agente indispensável no modelo desenvolvimentista coloca-se, sobretudo a serviço da lógica do mercado. Nesse contexto é que devem ser compreendidas as obras da transposição do S.Francisco, as hidrelétricas do rio Madeira, a retomada do programa nuclear, a retomada da indústria bélica no país, a concessão das rodovias públicas, a tolerância com o agronegócio – para ficar em alguns exemplos.

Em parte, esse “modelo” é explicada pela concepção de mundo de Lula. Segundo Gilberto Carvalho, assessor especial de Lula, o presidente “fica feliz da vida com o crescimento todo, a produção industrial, a produção agrícola e ao mesmo tempo a distribuição dessa riqueza traduzida em salários, em empregos, em melhor qualidade de vida para o povo”.

A favor do modelo desenvolvimentista do governo Lula, como um dos seus pilares para a correção das distorções das desigualdades estruturais está o aumento do salário mínimo, o crescimento do emprego (nesse momento abalado pela crise econômica) e a oferta de crédito. Entre os agentes de intervenção social do modelo de Estado do governo Lula estão os programas de mitigamento da miséria, como o Bolsa Família.

O programa Bolsa Família diz respeito a outra face do pós-neoliberalismo pragmático de Lula. “Programas de assistência social como o Bolsa Família não buscam mudança, mas apaziguamento. É o que qualifica de sistematização da miséria”, afirma sociólogo Francisco de Oliveira. O mesmo Chico de Oliveira comenta que Lula esvaziou a política: “Lula converteu-se num mito, e o mito é antipolítico por excelência. Ele se coloca acima das classes, dos conflitos. Com o mito você não faz política. E Lula converteu-se num mito”.
  
Na política, assim como Vargas, Lula incorporou o papel do grande conciliador de classes. Na análise do sociólogo Werneck Vianna, Lula evoca o “Estado Novo” do período getulista. “Qual foi a operação que o Estado Novo getuliano fez? Exatamente esta: tudo o que era vivo na sociedade ele trouxe para si. Tal como agora. Trouxe para si e, de cima, formula políticas para a sociedade”.
 
Segundo o sociólogo, Lula repete o Estado Novo: “É uma metáfora, mas mais que uma metáfora, um governo que absorve as representações corporativas de trabalhadores e empresários, com um chefe de Executivo carismático a mediar interesses conflitantes, fortalecido pela crescente centralização do Estado”. A aguda interpretação de Luiz Werneck Vianna é a de que o governo Lula engoliu a todos. O movimento social grita, reage, mas no limite não rompe com o governo; a direita esperneia, protesta, mas rende-se ao governo de coalizão; o capital produtivo e financeiro reclama, mas está contente com Lula. No máximo o presidente, deixa “que os dissídios internos amadureçam e no final arbitra e decide”.

O próprio presidente assume que desempenha a função de “conciliador de classes”: “Tenho a graça de Deus de transitar bem de uma reunião com banqueiros para uma de catadores de lixo”, disse Lula, em entrevista ao jornal argentino Clarín. Ao mesmo tempo Lula com sua política pragmática não se constrange com a reprodução dos métodos da ‘República Velha’: acertos, conchavos e composições esdrúxulas. Nisso também se assemelha a Vargas. O próprio, Lula afirma-se como o condutor do tertius da luta de classes ao dizer que “quando fui candidato a presidente pela primeira vez, os empresários tinham medo de mim como o diabo tem medo da cruz. Uma parte das pessoas pobres deste país também tinha medo de mim. Hoje tenho certeza de que os empresários não têm mais medo do Lula”.

(Ecodebate, 30/12/2008) publicado pelo IHU On-line, 28/12/2008 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

Fonte: http://www.ecodebate.com.br/
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